15 agosto 2017

Para morrer basta estar vivo




Lidar com a morte é realmente muito difícil. Mesmo aqueles que convivem todos os dias com a morte podem se surpreender com a notícia do falecimento de um parente muito querido.

Atualmente, eu trabalho em uma recepção de um Hospital particular da minha cidade. Quando comecei a trabalhar demorei para me acostumar com as angústias, tristezas, desesperos e notícias de mortes. Vez ou outra os meus olhos se enchiam de lágrimas e eu corria para o banheiro na tentativa de controlar as minhas emoções e tentar me acalmar.

Eu não conhecia o paciente internado, mas meu coração se enchia de compaixão quando eu via os parentes nervosos ou contentes na hora da alta. Eu chorava quando eles estavam bem, chorava quando estavam mal e morria de amores quando via os recém-nascidos todo enrolados em panos chiques.

Hospital é um lugar que mexe tanto com as emoções dos funcionários quanto com as dos pacientes, mas dizem por aí que os médicos já estão acostumados e não se assustam e nem sentem muito a morte, porém outro dia eu passei por uma experiência que me fez pensar sobre a banalização deste assunto.

Eu tinha acabado de chegar no meu posto quando um homem me pediu para fazer sua ficha para visitar um paciente internado na UTI. Não encontrei o senhor no sistema de internados e já desconfiei de que algo estava errado, pois me lembrava de ter visto seu nome outro dia.

Entrei no outro sistema e disse, para tentar ganhar tempo, que o senhor internado deveria estar de alta. O homem se identificou como médico e disse que isto não era possível, pois o senhor estava mal.  Neste momento, eu travei e encontrei a resposta estampada na tela.

Ele tinha acabado de falecer. 

Na maioria das vezes são os médicos do setor que dão esta notícia, porém eles não tinham ligado para os familiares ainda e o homem estava lá me encarando com um olhar distante e vazio.

Respirei fundo, olhei para as minhas colegas que estavam pálidas sem saber o que falar e disse com a voz trêmula:

- Senhor, infelizmente o paciente faleceu. – sorri de nervoso. Tenho mania de sorrir em situações estressantes e isso já me complicou bastante.

A última palavra foi dita quase como um sussurro de tão nervosa que eu estava, mas ele entendeu, engoliu a seco, colocou as mãos na cabeça e olhou para mim de um jeito bem intenso.

- Eu sou o filho dele.

Eu arregalei os olhos, abri um sorriso sem graça e me desculpei mil vezes por estar dando esta notícia de uma forma tão seca e bruta, mas ele segurou as minhas mãos e disse que não tinha problema, pois estava acostumado a lidar com a morte.

- Você está fazendo o seu trabalho, querida. Eu sou médico e estou acostumado com isso, mas é meu pai e eu acho que estou em estado de choque.

Levantei correndo para pegar água e até pensei em oferecer um doce para tentar amenizar a sua dor, mas o que podemos fazer em um momento como esse? 

Como confortar uma pessoa que você não conhece? Aliás, como confortar uma pessoa que você conhece?

O homem ficou parado na minha frente por mais alguns minutos de uma forma bem serena e tranquila, mas o seu estado de choque era perceptível.

Os médicos estão acostumados a lidar com a morte sim, mas ainda é bem difícil encarar a morte de um ente querido.

Depois de pegar os papeis do óbito, o homem voltou a falar comigo e a pedir desculpas pelo seu comportamento de choque. Ele queria ter agido de maneira mais forte, porém a sua fraqueza foi muito mais valiosa naquele momento. Mostrou a sua humanidade.

Mesmo sem saber muitas informações, eu o ajudei com os tramites do óbito no cartório e depois de tudo resolvido ele se sentou no saguão e ficou olhando para o nada. Mesmo longe de mim, eu senti uma conexão entre nós. Eu não o conheço, mas um dia vou passar pela mesma situação.


A morte não é nada fácil, meus amigos, mas basta estar vivo para morrer.

Beijos,


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